critica a Princesa Engasgada

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PECINHA É A VOVOZINHA!

Férias em Sampa com teatro infantil todo dia

Entre as atrações do festival do Teatro Folha, o ótimo e divertido A Princesa Engasgada, de Pamela Duncan

 

Dib Carneiro Neto

 

Uma das boas peças da safra de 2011 que fez carreira meteórica no fim do ano no Sesc Pinheiros e, por isso, teve pouca atenção da mídia foi A Fantástica Trupe em… A Princesa Engasgada, com o grupo A Peste – Cia. Urbana, capitaneado por Pamela Duncan. Vamos fazer justiça a esta bela montagem em 2012, prestigiando sua nova temporada. E que venham outras!

 

 

A Fantástica Trupe em… A Princesa Engasgada

Pernambucana do Recife, mas com forte sotaque argentino, por ter morado boa parte de sua vida em Buenos Aires, a diretora Pamela mergulhou com muita classe e talento no universo de Molière, inspirando-se na peça Médico à Força. Misturando linguagem de clowns, de animação, de cinema mudo e de Commedia Dell1’Arte, o espetáculo é pura diversão para toda a família. Curto, ágil, bem cuidado, A Princesa Engasgada faz agora participação no sempre bem-vindo Festival de Férias do Teatro Folha, que já está em sua 16ª edição, com sete peças na programação, uma por dia. A de Pamela Duncan tem sido apresentada às terças, 16 horas. Conversei com a diretora por email.

CRESCER: Na minha opinião de crítico, este é seu espetáculo mais bem acabado, mais bem resolvido. Você também acha isso? Por que sim ou por que não?
Pamela Duncan: Sempre um olhar de fora é importante, essa é sua visão de “artista–critico” que você é e que eu respeito. Eu não sei bem se é o mais resolvido, sempre tento estudar, pesquisar e me superar.Ter a ambição de cada dia ser melhor no que faço. Quando iniciamos uma montagem não sabemos como será o final desse processo.

No caso da Fantástica Trupe, foi um processo rico de pesquisa e direção de atores que me fez crescer muito artisticamente e tentei corrigir os pontos mais fracos que tenho como artista para me comunicar melhor com o público. Sempre imagino que cada espetáculo pertence a um momento das nossas vidas, o que queremos falar o dizer neste momento.

Crescer – Também tive a sensação de ser seu espetáculo de menor tempo de duração. Quanto tempo dura? Por que quis fazer uma peça tão curta? O que pensa da premissa de que espetáculos para crianças devem ficar sempre em torno de uma hora de duração? 
PD:
O espetáculo dura 45 minutos. Neste espetáculo, para todo publico, achamos que era o tempo ideal. A duração dos espetáculos muitas vezes nos é cobrada até pelas instituições, por acharem que as crianças não vão aguentar ficar sentadas por muito tempo. Em um inverno estava em Buenos Aires e assisti a uma peça infantil, Pinóquio, que durava duas horas com intervalo: as crianças ficaram bem durante todo o período. Aí pensei, o que aconteceria em nosso país se isso acontecesse? Eu acho que ainda estamos formando o nosso público, estamos na fase de criar a necessidade, a importância de assistir teatro, isso está se conseguindo pela qualidade dos espetáculos e pelas instituições determinadas no aprimoramento da cultura e educação do país. Vai levar gerações mas estamos caminhando muito bem para isto!

Outro exemplo deste caminho bem sucedido é “O Festival de Férias do Teatro Folha”, inspirado pelo produtor ousado, Isser Korik, ele consegue ter sucesso de público e bilheteria com a casa sempre lotada. Quem ia imaginar alguns anos atrás fazer um projeto no primeiro dia útil de Janeiro e durante a semana com esse sucesso? São Paulo é uma capital que já permite este tipo de proposta.

C: Em A Princesa Engasgada, o que você preservou do original de Molière em sua adaptação?
PD: Pesquisar Molière foi um prazer, desde a vida dele (que se assemelha a de qualquer artista de hoje) até seus pensamentos e colocações. Aí pensei: Seria Molière um feminista? Na peça, ele fala das relações marido-mulher dentro de casa de uma forma lúdica, engraçada e educativa. O ritmo que ele impôs às obras é extremadamente moderno. Assim como Shakespeare, Molière cria esta obra a partir de um conto medieval. Marcia Frederico, autora que conheci num festival, tem um texto chamado A Princesa Engasgada, texto adaptado do conto medieval O Médico à Força, de Molière, para teatro de rua. A partir do texto dela, começamos um caminho de ler o texto original da obra de Molière e construir o nosso próprio texto, respeitando sempre todas as fontes. O intuito da peça é homenagear os artistas em geral e Molière, em particular, que sempre foi um vendedor de ilusões, mambembe e sonhador incansável.

C: Como foi a preparação dos atores para um espetáculo que mescla tantas linguagens?
PD:
Eu venho pesquisando teatro físico e clown há alguns anos, isso facilitou o processo. Buscamos a linguagem do desenho animado e a Commedia Dell’Arte, para complementar a preparação dos atores. Alem disso, temos um ator que estudou na Itália, o que acrescentou muito ao grupo.

C.: Como foi, em termos de aceitação de público, a primeira temporada, no fim do ano passado, aos domingos, no Sesc Pinheiros? 
PD: Conversamos muito com o programador do Cineclubinho, Adolfo Mazzarini, sobre a tendência do “Teatro para todo público”, nova denominação que extingue a classificação do teatro em adultos e infantis.. Com isso, trabalhamos na proposta de incorporar o adulto e a criança em um espetáculo só. Conseguimos agradar a todos, os adultos se divertiram tanto quanto as crianças, tivemos casa lotada!

C: Comente um pouco sobre a criação dos figurinos. 
PD:
O figurino tem duas linhas e dois conceitos. Um moderno-atual, que é dos comediantes-clowns que vão apresentar a peça (A Fantástica Trupe) e outro mais datado, que marca o universo de Molière (A Princesa Engasgada). Para o de época nos baseamos nos pintores Van Eyck, Bosch, Mantegna e Bruguel e assistimos a filmes desse tempo. No visagismo nos inspiramos nos filmes de Fellini e do cinema mudo. A maquiagem da personagem Harpo e da personagem da Giulietta Masina foi inspirada no filme La Strada (Fellini).

C: Comente também a trilha que você encomendou ao Raul Córdula.
PD:
Raul é um talentoso! Trabalhar com ele é me surpreender e admirar seu trabalho. Acho que é uma parceria bem sucedida, porque ele prepara o material para escutar e testar nos ensaios, assim podemos adequar a música para cada momento.

Gosto de trabalhar com bons profissionais para aprender e me surpreender sobre as respostas em cada área do espetáculo. Assim foi também com Juvenal Irene, Ivaldo de Mello, Juarez Adriano, Jefferson Pancieri, entre outros.

C: Quais são suas maiores preocupações, cautelas e diretrizes como diretora de peças para crianças? 
PD:
Respeitar o publico e dar o melhor que temos para oferecer. Outra preocupação é com o conteúdo e a linha proposta, para que a obra não se esvazie pela direção, nem seja chata ou pesada pelo conteúdo. Também tem a ver com a vertente que se está discutindo de Teatro para todo Público. Acredito que a qualidade dos espetáculos infantis atualmente em São Paulo é admirável. Grupos e artistas preocupados na pesquisa, na produção e no produto cultural como um todo. Gosto de assistir aos artistas criando, isso me inspira, reafirma e me faz crescer.

C: Que papel o cinema teve na sua infância e tem agora na sua vida de adulta, já que você sempre gosta, em seus espetáculos, de reverenciar o lado ingênuo do cinema mudo (como a filmografia de Charles Chaplin e da dupla Laurel & Hardy, o gordo e o magro)?
PD:
O cinema na minha vida foi introduzido pela minha mãe, mulher culta, que adora cinema, gosta de Buster Keaton e do cinema mudo, nos levava muito ao cinema desde os primeiros anos . Assistia a tudo que estreava, mas tinha uma preferência pelo cinema mudo, e ela nos contava como atuavam esses artistas e como eram os cinemas nas cidades pequenas do interior. A partir daí, comecei a pesquisar o cinema mudo e seus autores, como também o cinema para todo público (por exemplo, os filmes de Mazzaroppi). Os ingênuos somos nós, os artistas, independentemente da área em que atuamos. O artista tem ingenuidade frente ao mundo e a sociedade tal como se apresenta. O sonho e a ilusão fazem parte deste universo, que nos faz movimentar, criar e acreditar em um mundo especial diferente da realidade.

Crescer – Que recado principal você quis transmitir ao público com a montagem de A Princesa Engasgada?
PD:
O teatro é divertimento, quisemos apresentar um espetáculo bem realizado, pensado e atuado. Demos o melhor de nós à proposta idealizada pelo grupo. O engajamento dos atores Rod Jubelini, que voltou da Itália depois de ter estudado Commedia Dell’Arte; Luiz Fernando Albertoni, que já me acompanha em outras montagens e paralelamente trabalhou com Zé Renato, entre outros diretores; Vanessa Campanari, atriz que esta iniciando na companhia, e todos da equipe técnica, que abraçaram a proposta de ficar meses nas Oficinas Culturais Oswald de Andrade pesquisando, lendo e treinando para chegar à estreia do espetáculo A Fantástica Trupe…em A Princesa Engasgada, com o intuito de criar e falar das relações humanas dentro do lar, que é um tema que nos preocupa profundamente.

 Serviço

Festival de Férias. Teatro Folha. Shopping Higienópolis. Tel. 3823-2323. Segunda a sexta, 16 h; sábado e domingo, 16 e 17h40. R$ 30 e R$ 15 (meia).

Às segundas: João e Maria, com Le Plat Du Jour

Às terças: A Fantástica Trupe em… A Princesa Engasgada, com A Peste – Cia. Urbana de Teatro

Às quartas: Cadê Todo Mundo? V. 2.0, com o palhaço Tozinho

Às quintas: Pop, com a Cia. Noz de Teatro e Dança

Às sextas: O Gato de Botas, de Paolino Rafanti

Aos sábados e domingos, às 16h: Os Saltimbancos, de Fezu Duarte

Aos sábados e domingos, às 17h40: O Rei Leão – O Reino de Simba, produção de Cássio Reis

 

  Dib Carneiro Neto, 50, é jornalista, dramaturgo (Prêmio Shell 2008 por Salmo 91), crítico de teatro infantil e autor do livro Pecinha É a Vovozinha (DBA), entre outros. Fale com o colunista 

 

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